sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Estresse pode provocar doenças de pele



O mundo está cada dia mais agitado, a vida mais corrida e, com isso, as pessoas têm menos tempo para relaxar. O estresse do cotidiano faz com que algumas doenças sejam mais freqüentes e os distúrbios de pele são um exemplo disso. Eles podem ser desencadeados ou agravados pelo estado emocional.

“O estresse pode ser um fator decisivo em uma pessoa que já tem uma tendência genética ou com algum fator ambiental que possa desencadear uma doença. Ele libera uma substância nos nervos, chamada neuropeptídeo, e isso leva à inflamação da pele e todas as doenças”, diz o professor doutor Ricardo Romiti, médico do departamento de dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Existem algumas doenças mais comuns, como a psoríase que atinge aproximadamente 2% da população mundial. As vítimas já têm algum parente com o



problema ou alteração genética, mas muitas vezes não sabem. Fatores como estresse, infecção, mudança de trabalho, entre outros, podem desencadeá-la.

“O estresse pode ser um fator decisivo em uma pessoa que já tem uma tendência genética ou com algum fator ambiental que possa desencadear uma doença”

A doença costuma aparecer nos cotovelos, joelhos e couro cabeludo. Em alguns pacientes, pode se espalhar pelo corpo todo ou afetar as articulações, fazendo com que a pessoa tenha que andar de cadeira de rodas. Nos casos mais leves, o tratamento é feito com pomadas e, nos mais pesados, são necessários medicamentos via oral para diminuir as inflamações da pele e das juntas.


O problema costuma aparecer após os 20 anos de idade e, quanto mais cedo surgir, mais grave deve ser. A fototerapia ou banho de luz também é aconselhável para o tratamento.

A consultora financeira Ariane Lanzarini tem psoríase nos cotovelos e lembra que, quando apareceram as primeiras marcas, um médico informou que se tratava de uma doença psicossomática. “Ele disse que eu teria que fazer análise, mas eu nunca fiz. Nunca tive tempo”, diz.

Os cotovelos da consultora chegam a sangrar quando ela está muito nervosa. “É engraçado medir o nervoso pelo cotovelo. Quando estou muito estressada, muito nervosa, aumenta. Quando eu fico mais calma, diminui”, analisa. Como tratamento, ela utiliza pomadas nas feridas. “Melhora, mas não acaba, não cura nunca”, lamenta.

Há mais de sete anos com a doença, a consultora financeira garante que ela nunca evoluiu. Seus sintomas pioram nos momentos de estresse, mas logo voltam à forma antiga. “É engraçado, você acostuma e se conforma, então, não te incomoda. Incomoda quem vê. Já liguei mais para isso, usava até camisetas de manga comprida, mas não me preocupo mais. Me senti ridícula de ligar para isso. Passar calor por causa dos outros?”, questiona.

A dermatite atópica é outro problema freqüente, que já começa na infância, mas também atinge adultos de forma mais leve. A vítima apresenta uma forma de equizema (lesão na pele decorrente de sua inflamação), que gera muita coceira. “A pessoa não consegue dormir e fica muito irritada”, afirma Romiti.

O especialista ainda conta que em alguns casos, só de internar a criança no hospital, a doença já é curada. “Por isso, acreditamos que o ambiente influencia bastante”, diz. A pele fica ressecada e outras alergias se desencadeiam, como rinite alérgica, asma e sinusite. Alguns casos de dermatite melhoram espontaneamente, e outros vão até a vida adulta. No inverno, a doença costuma piorar, devido ao tempo que resseca a pele.

O tratamento é feito à base de hidratante, emoliente, óleos e uréia. Até vaselina pode ajudar. Às vezes, são indicados cremes ou pomadas com corticóide, mas com uso restrito. O corticóide afina a pele, pode causar estrias, fazer crescer pêlos, ter uma absorção sistêmica e comprometer a pressão. Por isso, deve ser usado exatamente da maneira que o dermatologista recomendar.

Remédios antihistaminicos também são indicados. Eles amenizam a alergia e são bons para crianças mais inquietas. “É bom porque dá sono e a criança sossega”, diz o dermatologista.

Na hora do banho, a vítima não pode esfregar o sabonete ou a bucha pelo corpo. Além disso, não é recomendado ficar muito tempo na água quente, pois sensibiliza a pele. Existe ainda a queda de cabelos ou alopecia areata associada ao estresse. Neste caso, aparecem algumas falhas no couro cabelo, na sobrancelha e até pelo corpo. “Ficam rodelas sem pêlo nenhum. As pessoas pensam que é micose, mas não é”, diz Romiti.

“Quando o fator que causou a queda passa, alguns casos regridem naturalmente”, conta o especialista. Para o tratamento, recomenda-se a aplicação restrita de corticóide e fototerapia.

Por falar em couro cabeludo, poucos sabem, mas a caspa é uma dermatite associada ao estresse. Conhecida também como dermatite seborréica, ela pode aparecer de maneira intensa e se espalhar por toda a cabeça. A pessoa fica com vermelhidão e a pele descamada no meio do rosto, em volta do nariz, sobrancelha, cílios e apresenta dermatite até no tórax.

Quem tem caspa precisa usar xampu com ácido salicítrico. Em situações mais graves, o indicado é utilizar pomadas com corticóide e imunomoduladoras, que equilibram o sistema imunológico.

Segundo o especialista Ricardo Romiti, o estresse que provoca esses distúrbios não é apenas aquele velho conhecido reflexo da correria das cidades grandes. Ele pode ocorrer por motivos distintos, como uma cirurgia, doença, infecção, baixa imunidade, faringite mais séria, entre outros.
“Muitas vezes, a pessoa pode se enganar e achar que é uma micose. Isso pode dar problema, porque ela passa uma pomada para micose e irrita a pele. É sempre bom ter o diagnóstico certo para obter o tratamento correto”, diz o dermatologista.

Por ser uma doença desencadeada pelo estresse, muitos pacientes ainda vêem necessidade de apoio psicológico no período do tratamento. A dermatologista Luciana Conrado trabalha com psicodermatologia, uma vertente da dermatologia que estuda as doenças da pele com as causas psicológicas. Ela procura nos pacientes os fatos que influenciam no desenvolvimento e tratamento do distúrbio, que estão além da causa habitual. “Eu busco relações entre o estresse cotidiano, o estresse causado pela presença da doença, os conflitos e mecanismos de defesa psíquicos envolvidos nestas patologias e também identifico doenças que são psíquicas primeiramente e causam transtornos dermatológicos secundários”, explica.

É importante identificar as causas psicológicas em problemas na pele, porque elas causam impacto imediato na vida do paciente. “A exposição da doença cutânea causa reações imediatas no ambiente e cotidiano do paciente, com perguntas e constrangimentos. É uma doença onde o paciente pode interagir com as lesões, criando, complicando ou ainda contribuindo para sua melhoria”, diz a especialista.

O distúrbio da pele pode melhorar ou piorar de acordo com os fatores emocionais vivenciados pela pessoa. Por esses motivos, é importante um acompanhamento psicológico, além do tratamento com o dermatologista. Mesmo sem cura, essas doenças podem ser amenizadas, basta seguir o tratamento corretamente e nunca se automedicar.

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